aquela noite inteira

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aquela noite inteira

eu quis ser sua amiga

percorri os seus cabelos com a língua

calculei a parábola do sol se por acaso eu tropeçasse e desse com a cara no seu joelho forçando essa amizade, obrigando-o a se desculpar ainda que não me tivesse feito nada

e quantas vezes rocei ombro com ombro por acidente

e olhei os seus olhos e achei parecidos com os de um gato que eu vi em um vídeo do youtube

achei que se você corresse em direção ao mar certamente aquelas pedras grandes de praia estariam à sua esquerda e um barco surgiria neste instante no horizonte trazendo deliciosos peixes frescos que fariam sorrir os casais do quiosque que gostam de comer porções cem por cento frescas e desenhar com limão ao sol o acaso de um pingo nas costas das mãos e depois ler como se vissem o futuro em borra de café

achei que você duvidava que eu o olhava e você estava completamente certo porque eu atravessava o seu rosto, ou seja, o seu nariz não me impedia de ir muito além do que ele mesmo me oferecia como assunto e paisagem

e esse era um talento exclusivamente meu

ao qual

você ali

aquela noite inteira

ajudou

um pouquinho

um pedido

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trouxe o que eu pedi?

pergunto há um desconhecido na rua

apesar do medo

ele me olha

por algum tempo

com muita dúvida

e depois

decide ir embora

sem compreender nada


eu permaneço lá

esperando

uma pessoa

que me traga

o que

preciso

e também

não sei o que é


ai das analogias

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1.

para falar

de amor?

fundamos raízes no clichê


2.

por exemplo:

substituem-se

as pintas visíveis do corpo de uma mulher

por estrelas


3.

o corpo chamaremos: universo


4.

diremos: é infinito

como se fosse uma medida

embora saibamos:

está sempre em expansão

(é sem medidas)


5.

não se contorna o corpo com o olhar

- só se percebe o universo de dentro dele


6.

daqui

de dentro do seu corpo

observo

uma ciência




sou aquela

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sou aquela que
enquanto conversa sobre a vida
    penteia
       distraidamente
com os dedos
os pêlos da xoxota

peço desculpas
por tamanha
     delicadeza

o mesmo trem

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de qualquer lado da cidade se escuta o trem

os mais apegados ao sentido
dirão
era eu mesmo dentro daquele trem

mas o trem já não carrega gente

o trem carrega a pedra
- futuro pó -

e eu nem sei
o que carrego em mim